2 de jan. de 2026

Bom dia né gente?

Porra, Emicida, era só uma sexta à tarde. Estava aqui ouvindo música para passar meu último dia antes das férias de verão. Era só uma playlist de novidades e eu comecei a ouvir sem suspeitar a sua música. achei interessante porque tinha o nome da sua mãe recentemente falecida entre os nomes dos cantores. Pensei, olha, será que ela também cantava e eu não sabia.

e aí, era a música da poesia. era a música - voz da mãe em momentos de agonia. E também nos de alegria. Eu pensei no privilégio que é ter tido mãe neste tempo de gravações de áudio, de vídeo, tão recorrentes, nas mãos de todos. Antes, lá quando minha mãe vivia, nunca tivemos câmera de vídeo, gravações de aúdio eram só os recados de caixa postal. Eu lembro que a gente nunca ouvia. Mas um tempo depois eu resolvi escutar um perdido, e era minha mãe, falando "ei, rueira, vem para casa, tem vatapá". 

Eu não salvei. Nem sei se faria diferença isto hoje. Na hora pensei: deixo  aqui, para relembrar, ou apago para não doer. Salvar vai doer ou vai alegrar? Eu era ainda muito jovem para ter esta maturidade de pensar não só na perda, mas no privilégio de ter tido. De ter sido filha e não só convivido com uma pessoa tão iluminada. E da sua voz linda e cheia de vida, optei naquele momento por apagar e matar também no celular uma voz que eu nunca mais ia ouvir. Hoje talvez eu não conseguiria nem transformar para outro formato ou passar para outro telefone. Tantas tecnologias em mais de 20 anos. 

Mas o jeito dela falar, esta linda homenagem, também me fizeram chorar, de novo. Reconheci no jeito de Dona Jacira um tanto da minha mãe, um tanto desta graça brasileira, um tanto de coração de mãe com um quanto de arte. Quando a gente pensa que a saudade já é um buraco pavimentado, vem saudade em modo maior e transborda a poça d'água embaixo de volta pra nossa vida. 

Então, porra, que saco, e ao mesmo tempo obrigada, Emicida. 


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