28 de jan. de 2026

conversar é dobrar esquinas

conversar é dobrar esquinas

se arrepender de virar,

se perder ou se achar


formar uma nova guarida,

alugar um triplex na quadra,

ou sentir um vento gelado

vindo de outra avenida


também sentir medo ou encantamento

admirando  paisagem-pensamento


tem ideias, mesmo sem fundamento

de glitter com fermento

cresce, explode e virão outras


tem troca de ideia que faz lua nova

crescente de vida


12 de jan. de 2026

cheiro de poesia

as horas se estendem longas

puxando o novelo do dia


as horas passaram curtas

nessa breve melodia


e já nem sei se foi hoje ou amanhã

esse cheiro de poesia

crushão ou crushonete?

é para deitar ou só descansar um pouquin?


crushão dá vontade de ficar

mas crushonete é leve de carregar


é crush de mastigar pedra

ou batata crocante


é acrushego ou sem sossego?


é crush de bola de chiclete

ou de vidro -crush!- no chão?


crush de fruta laranja vivo

vento fresco no ouvido

5 de jan. de 2026

do nosso coração não tem dó

tem gente assim, ó

que escreve uns negócio

bonito que só


dá uma rasteria no português sem dó


fica na garganta um nó

o pensar sai do sossego

viaja a muitos nós

Fruta vento, pomar ventania

a gente amanheceu em sol

o verbo se abriu em flor

e o verso desabrochou


nesse pequeno canto colorido

nesse pequeno grande dia

nesse instante leve, fruta vento


nesse momento de alegria

hoje ou amanhã,

quanto tempo


ave ou avenida

pomar ventania


vou fazer uma rima rimar lá longe

onde o tempo se inicia

Planos para férias II

Passear com o Tilim

dormir mais um pouquim


caminhar tirando foto

nem aí pro movimento


batucar a música

sem ritmo no tempo


sentir a noite entrar

janela afora


notícias, com parcimônia

enquanto a roupa seca


Planos para férias

Escrever o que vier à tona

e ficar muito à toa


ler o livro iniciado

usar meus trocados

ou não gastar nenhum centavo


para ficar de pijama, ou pelado

sentir a brisa da manhã

ouvir um belo xaxado


esticar as pernas, sentir o tempo

passar dia adentro


sair, tomar café,

quando o sol baixar

não fiz esse poema pra você

funciona assim:

estava pensando em você 

e saiu esse poema


minha mão foi deslizando

pela folha, pelo tema


pensei em você

e o poema aconteceu

2 de jan. de 2026

Bom dia né gente?

Porra, Emicida, era só uma sexta à tarde. Estava aqui ouvindo música para passar meu último dia antes das férias de verão. Era só uma playlist de novidades e eu comecei a ouvir sem suspeitar a sua música. achei interessante porque tinha o nome da sua mãe recentemente falecida entre os nomes dos cantores. Pensei, olha, será que ela também cantava e eu não sabia.

e aí, era a música da poesia. era a música - voz da mãe em momentos de agonia. E também nos de alegria. Eu pensei no privilégio que é ter tido mãe neste tempo de gravações de áudio, de vídeo, tão recorrentes, nas mãos de todos. Antes, lá quando minha mãe vivia, nunca tivemos câmera de vídeo, gravações de aúdio eram só os recados de caixa postal. Eu lembro que a gente nunca ouvia. Mas um tempo depois eu resolvi escutar um perdido, e era minha mãe, falando "ei, rueira, vem para casa, tem vatapá". 

Eu não salvei. Nem sei se faria diferença isto hoje. Na hora pensei: deixo  aqui, para relembrar, ou apago para não doer. Salvar vai doer ou vai alegrar? Eu era ainda muito jovem para ter esta maturidade de pensar não só na perda, mas no privilégio de ter tido. De ter sido filha e não só convivido com uma pessoa tão iluminada. E da sua voz linda e cheia de vida, optei naquele momento por apagar e matar também no celular uma voz que eu nunca mais ia ouvir. Hoje talvez eu não conseguiria nem transformar para outro formato ou passar para outro telefone. Tantas tecnologias em mais de 20 anos. 

Mas o jeito dela falar, esta linda homenagem, também me fizeram chorar, de novo. Reconheci no jeito de Dona Jacira um tanto da minha mãe, um tanto desta graça brasileira, um tanto de coração de mãe com um quanto de arte. Quando a gente pensa que a saudade já é um buraco pavimentado, vem saudade em modo maior e transborda a poça d'água embaixo de volta pra nossa vida. 

Então, porra, que saco, e ao mesmo tempo obrigada, Emicida. 


eventos extremos, temos

agora todo dia


vento, chuva, raio

e tudo mais

qualquer evento agora é demais


vira de novo,

calor, sol, abafado

qualquer um vê que o tempo

tá todo errado