tem gente assim, ó
que escreve uns negócio
bonito que só
dá uma rasteria no português sem dó
fica na garganta um nó
o pensar sai do sossego
viaja a muitos nós
Só para fazer um trocadilho mesmo.
tem gente assim, ó
que escreve uns negócio
bonito que só
dá uma rasteria no português sem dó
fica na garganta um nó
o pensar sai do sossego
viaja a muitos nós
a gente amanheceu em sol
o verbo se abriu em flor
e o verso desabrochou
nesse pequeno canto colorido
nesse pequeno grande dia
nesse instante leve, fruta vento
nesse momento de alegria
hoje ou amanhã,
quanto tempo
ave ou avenida
pomar ventania
vou fazer uma rima rimar lá longe
onde o tempo se inicia
então eu cantei, dancei
e chamei
pedi ao universo
e ele me deu novo verso
pedi para a fita do Bonfim
um sentimento do sem fim
e ela mostrou pra mim
cada onda, cada curva
cacho cacho de uva
Passear com o Tilim
dormir mais um pouquim
caminhar tirando foto
nem aí pro movimento
batucar a música
sem ritmo no tempo
sentir a noite entrar
janela afora
notícias, com parcimônia
enquanto a roupa seca
Escrever o que vier à tona
e ficar muito à toa
ler o livro iniciado
usar meus trocados
ou não gastar nenhum centavo
para ficar de pijama, ou pelado
sentir a brisa da manhã
ouvir um belo xaxado
esticar as pernas, sentir o tempo
passar dia adentro
sair, tomar café,
quando o sol baixar
funciona assim:
estava pensando em você
e saiu esse poema
minha mão foi deslizando
pela folha, pelo tema
pensei em você
e saiu esse poema
Porra, Emicida, era só uma sexta à tarde. Estava aqui ouvindo música para passar meu último dia antes das férias de verão. Era só uma playlist de novidades e eu comecei a ouvir sem suspeitar a sua música. achei interessante porque tinha o nome da sua mãe recentemente falecida entre os nomes dos cantores. Pensei, olha, será que ela também cantava e eu não sabia.
e aí, era a música da poesia. era a música - voz da mãe em momentos de agonia. E também nos de alegria. Eu pensei no privilégio que é ter tido mãe neste tempo de gravações de áudio, de vídeo, tão recorrentes, nas mãos de todos. Antes, lá quando minha mãe vivia, nunca tivemos câmera de vídeo, gravações de aúdio eram só os recados de caixa postal. Eu lembro que a gente nunca ouvia. Mas um tempo depois eu resolvi escutar um perdido, e era minha mãe, falando "ei, rueira, vem para casa, tem vatapá".
Eu não salvei. Nem sei se faria diferença isto hoje. Na hora pensei: deixo aqui, para relembrar, ou apago para não doer. Salvar vai doer ou vai alegrar? Eu era ainda muito jovem para ter esta maturidade de pensar não só na perda, mas no privilégio de ter tido. De ter sido filha e não só convivido com uma pessoa tão iluminada. E da sua voz linda e cheia de vida, optei naquele momento por apagar e matar também no celular uma voz que eu nunca mais ia ouvir. Hoje talvez eu não conseguiria nem transformar para outro formato ou passar para outro telefone. Tantas tecnologias em mais de 20 anos.
Mas o jeito dela falar, esta linda homenagem, também me fizeram chorar, de novo. Reconheci no jeito de Dona Jacira um tanto da minha mãe, um tanto desta graça brasileira, um tanto de coração de mãe com um quanto de arte. Quando a gente pensa que a saudade já é um buraco pavimentado, vem saudade em modo maior e transborda a poça d'água embaixo de volta pra nossa vida.
Então, porra, que saco, e ao mesmo tempo obrigada, Emicida.
eventos extremos, temos
agora todo dia
vento, chuva, raio
e tudo mais
qualquer evento agora é demais
vira de novo,
calor, sol, abafado
qualquer um vê que o tempo
tá todo errado
Pareço limpinha, mas não lavo direito minhas canecas de café
(se vai sujar de novo da mesma coisa de beber...)
Pareço ateia, mas em tanta coisa boto fé
(se ver tanta beleza e história boa de crer)
Pareço à toa mas mesmo sem limpar o note
eu lembro de soprar as teclas
Pareço pudica, mas talvez diga o contrário
alguma coisa escrita
Eu nunca mais bebi algumas vezes também
Eu nunca mais vou responder já disse vários oi,
tudo bem?
Pareço rígida mas tem umas palavras bonita
que escuto nas músicas e me deixam boba
mais mole que maria
Eu nunca mais serei feita de trouxa
não levarei mais minha alegria
onde me retornam antipatia
mas falei e já esqueço
e me encanta outra fantasia
Parecem aqui dois poemas
que misturei à revelia
Pareço nunca mais
acreditar no que dizia
Reunião até as 09:30. Ver mensagens, ver Linkedin.
Não comi, acabou café requentado, passar café, comer resto de bolo
chega irmã para passar final de ano, tem que dar um pouco de atenção
servir café, renegar última fatia de bolo de rolo
filho vai vir, o que almoçar? não vai vir, então descongela comida que ele não gosta
que bom, minha irmã come de tudo, vai gostar
mas microondas não funciona, tem de requentar descongelando.
máquina também dando defeito, cuida, arruma com jeito para não quebrar
agora senta de novo pra trabalhar, pera
cachorro fez xixi na sala, no sofá e na visita sentada
Tilim, não é assim que trata visita! Numa ele mija, na outra vomita
Limpa chão, empresta toalha. Tá pronta a comida, senta para almoçar
Olha a hora, tem hora de almoço para acabar, tem uma pessoa que vem buscar
o cachorro para a veterinária. Almoçar em 20 minutos, uber pet lá em baixo
Entrega cachorro, volta o filho, também descemos pra buscar
Mensagens sobre o Naatal, quem tem pirex para emprestar
Mensagem de viagem, quando vai ser, quem vai estar
O trabalho lá quietinho, não consigo voltar
Depois tem a psicóloga do filho, não pode faltar, é remoto
mas isso quer dizer que tenho de sair para ele falar
Não cabou o dia, mas já posso surtar?
Daqui a pouco trabalhar no dia Hohoho 22 de Papai Noel dezembro.
Não são nem 9 horas e já faz 28 graus lá fora
Além de trabalhar ainda gastando luz pra ligar o ar
Também tenho um crime para confessar
talvez pior do que adoçar
requentei café de ontem, podem julgar
desde que comecei a sonhar de novo
a rima não me larga mais
quero fugir dela, tiro o óculos
assim não começo o gancho
a mente responde: - Tanto faz,
não preciso óculos para seu garrancho.
Fala alguma coisa sem rima,
seu chato maldito.
Cérebro, eu te interdito
vou te internar,
anestesiar com pirulito
tirar à força essa memória
com tequila, sem história
ficar anêmica de tanto dar
curar com ferro e carne (que tem B12)
12 é um bom número, pra começar
vamos emputecer pra passar
quantas desilusões curam a rima?
ou será minha sina,
só piorar?
A gente tenta dar um susto na pobreza, mas o resto da vida não sustenta.
O café da promoção tem nome francês, porque para o bom colonizado brasileiro, o requintado tem de ser estrangeiro, ou soar assim, mesmo sendo o Brasil famoso por seu café, e não a França.
Mas aí todo o resto é capenga. A água não filtrada vai direto para a chaleira. A chaleira é de alumínio, com esmalte desgastado igual dona de casa que lava louça sem luva e calcinha na mão para não estragar a renda.
E então o café de nome francês, que tem propaganda com ouro em pó, parece igual um bem médio qualquer. A pobreza pensa: não pode ser, deve ser o resto capenga. A água, a chaleira, o coador de plástico laranja. Talvez a quantidade de pó, a temperatura da água, a validade do pó. Vale nada, já descobri.
"vamos nos falando"
são eles te cozinhando
cada maria, em um banho
cada panela, uma boca do fogão
sem tempo, irmão
Maria também tem orgulho
e sabe responder não
pra quem não faz tanta questão
se é horário nobre do princeso
quem somos nós pra atrapalhar
tão disputada agenda
fica cada um por si, no sossego
e vai cada um pro seu lado,
de contramão
não estou aqui pela sua beleza
me diz quantos sentimentos
e se tem sobremesa
não estou aqui pelos seus bens
me diz se tem molejo
quero ver se dança bem
não estou aqui pelo seu cargo
me diz se tem tempo
para curtir pele ao vento
não estou aqui por sua herança
quero saber o olhar que lança
como se porta quando tenta
não estou aqui por nada
escolhendo minha salada,
prazer em conhecer
E o ano foi-ce
e o amor, foi-se pra onde?
e as promessas foram-se vagas
rasas e vazias
nada além de inútil poesia
e o dia amanheceu-se
cinza, apensar do sol
bonita, a pesada nuvem
e o dia escureceu-se
azul, apesar de cinza
novembro 2025
depois de alguns anos
entrar naquele link empoeirado da teia
vai lembrar quem era?
foram tantas outras,
foram tantos anos
ou foram só dias?
que cheiro tinha?
foi em que vida
a despedida
era santa ou putinha?
esse tanto de escrito
foi só pra mim
já era antes
ou começou no fim?
eu fui sem olhar para trás
ou exitei na esquina?
foi longo, durou quanto
era mulher ou menina?
foi intenso ou foi morno
eu tava por alto
ou ela por cima?
foi dia ou foi noite
me trouxe sorte
ou mau agouro?
quem foi essa menina?
era alta, era baixa
cabeluda ou depilada
engraçada ou ranzinza
tanto faz, tá apagada
tira essa teia do dedo
fecha estas páginas viradas
nada melhor para poesia
do que ser dispensada
nada melhor para a rima
que ser friamente descartada
nada rende melhor verso
que uma bonita renda
abruptamente desfiada
nada melhor para um poeta,
ser deixado no escuro
a mente faz uma festa
triste e caótica,
mas ainda festa (presta?)
de uma porta fechada
poeta não acha janela
mas um livro todo
ele tira da lapela
Ficou tanto não dito.
Pêlos aflitos
Ficou tão estranho,
este sentir tacanho
tão imperfeito, tão torto
e tão humano
Nem um tchau, nem um cansei,
nem um: -Basta!, voltei pra ex
não vai ter cena de ciúme,
não vai ter vidro de perfume
não vai ter bolo, nem café
só vai ter fome.
Seguirei a pé
Mas que grosseria
nem boa noite, nem bom dia
Quando se vê, tudo esfria
você se pergunta: eu deveria?
Para onde a gente ia
A vida é cheia de ironia
você nem sabe se queria
mas ainda tem um sonho, espia,
um orgulhoso com outro não se cria
quem irá sair deste estado de apatia
romper o silêncio, voltar a harmonia
quem irá buscar de volta a alegria
de uma simples sintonia