5 de jan. de 2026

do nosso coração não tem dó

tem gente assim, ó

que escreve uns negócio

bonito que só


dá uma rasteria no português sem dó


fica na garganta um nó

o pensar sai do sossego

viaja a muitos nós

Fruta vento, pomar ventania

a gente amanheceu em sol

o verbo se abriu em flor

e o verso desabrochou


nesse pequeno canto colorido

nesse pequeno grande dia

nesse instante leve, fruta vento


nesse momento de alegria

hoje ou amanhã,

quanto tempo


ave ou avenida

pomar ventania


vou fazer uma rima rimar lá longe

onde o tempo se inicia

cacho cacho de uva

então eu cantei, dancei

e chamei


pedi ao universo

e ele me deu novo verso


pedi para a fita do Bonfim

um sentimento do sem fim

e ela mostrou pra mim


cada onda, cada curva

cacho cacho de uva

Planos para férias II

Passear com o Tilim

dormir mais um pouquim


caminhar tirando foto

nem aí pro movimento


batucar a música

sem ritmo no tempo


sentir a noite entrar

janela afora


notícias, com parcimônia

enquanto a roupa seca


Planos para férias

Escrever o que vier à tona

e ficar muito à toa


ler o livro iniciado

usar meus trocados

ou não gastar nenhum centavo


para ficar de pijama, ou pelado

sentir a brisa da manhã

ouvir um belo xaxado


esticar as pernas, sentir o tempo

passar dia adentro


sair, tomar café,

quando o sol baixar

não fiz esse poema pra você

funciona assim:

estava pensando em você 

e saiu esse poema


minha mão foi deslizando

pela folha, pelo tema


pensei em você

e saiu esse poema

2 de jan. de 2026

Bom dia né gente?

Porra, Emicida, era só uma sexta à tarde. Estava aqui ouvindo música para passar meu último dia antes das férias de verão. Era só uma playlist de novidades e eu comecei a ouvir sem suspeitar a sua música. achei interessante porque tinha o nome da sua mãe recentemente falecida entre os nomes dos cantores. Pensei, olha, será que ela também cantava e eu não sabia.

e aí, era a música da poesia. era a música - voz da mãe em momentos de agonia. E também nos de alegria. Eu pensei no privilégio que é ter tido mãe neste tempo de gravações de áudio, de vídeo, tão recorrentes, nas mãos de todos. Antes, lá quando minha mãe vivia, nunca tivemos câmera de vídeo, gravações de aúdio eram só os recados de caixa postal. Eu lembro que a gente nunca ouvia. Mas um tempo depois eu resolvi escutar um perdido, e era minha mãe, falando "ei, rueira, vem para casa, tem vatapá". 

Eu não salvei. Nem sei se faria diferença isto hoje. Na hora pensei: deixo  aqui, para relembrar, ou apago para não doer. Salvar vai doer ou vai alegrar? Eu era ainda muito jovem para ter esta maturidade de pensar não só na perda, mas no privilégio de ter tido. De ter sido filha e não só convivido com uma pessoa tão iluminada. E da sua voz linda e cheia de vida, optei naquele momento por apagar e matar também no celular uma voz que eu nunca mais ia ouvir. Hoje talvez eu não conseguiria nem transformar para outro formato ou passar para outro telefone. Tantas tecnologias em mais de 20 anos. 

Mas o jeito dela falar, esta linda homenagem, também me fizeram chorar, de novo. Reconheci no jeito de Dona Jacira um tanto da minha mãe, um tanto desta graça brasileira, um tanto de coração de mãe com um quanto de arte. Quando a gente pensa que a saudade já é um buraco pavimentado, vem saudade em modo maior e transborda a poça d'água embaixo de volta pra nossa vida. 

Então, porra, que saco, e ao mesmo tempo obrigada, Emicida. 


eventos extremos, temos

agora todo dia


vento, chuva, raio

e tudo mais

qualquer evento agora é demais


vira de novo,

calor, sol, abafado

qualquer um vê que o tempo

tá todo errado

25 de dez. de 2025

à revelia

 Pareço limpinha, mas não lavo direito minhas canecas de café

(se vai sujar de novo da mesma coisa de beber...)


Pareço ateia, mas em tanta coisa boto fé

(se ver tanta beleza e história boa de crer)


Pareço à toa mas mesmo sem limpar o note

eu lembro de soprar as teclas


Pareço pudica, mas talvez diga o contrário

alguma coisa escrita


Eu nunca mais bebi algumas vezes também

Eu nunca mais vou responder já disse vários oi,

tudo bem?


Pareço rígida mas tem umas palavras bonita

que escuto nas músicas e me deixam boba

mais mole que maria


Eu nunca mais serei feita de trouxa

não levarei mais minha alegria

onde me retornam antipatia


mas falei e já esqueço

e me encanta outra fantasia


Parecem aqui dois poemas

que misturei à revelia


Pareço nunca mais

acreditar no que dizia

22 de dez. de 2025

tentando trabalhar no dia 22 de hohoho papai noel dezembro


Reunião até as 09:30. Ver mensagens, ver Linkedin. 

Não comi, acabou café requentado, passar café, comer resto de bolo

chega irmã para passar final de ano, tem que dar um pouco de atenção

servir café, renegar última fatia de bolo de rolo


filho vai vir, o que almoçar? não vai vir, então descongela comida que ele não gosta

que bom, minha irmã come de tudo, vai gostar

mas microondas não funciona, tem de requentar descongelando. 

máquina também dando defeito, cuida, arruma com jeito para não quebrar


agora senta de novo pra trabalhar, pera

cachorro fez xixi na sala, no sofá e na visita sentada

Tilim, não é assim que trata visita! Numa ele mija, na outra vomita


Limpa chão, empresta toalha. Tá pronta a comida, senta para almoçar

Olha a hora, tem hora de almoço para acabar, tem uma pessoa que vem buscar

o cachorro para a veterinária. Almoçar em 20 minutos, uber pet lá em baixo


Entrega cachorro, volta o filho, também descemos pra buscar

Mensagens sobre o Naatal, quem tem pirex para emprestar

Mensagem de viagem, quando vai ser, quem vai estar


O trabalho lá quietinho, não consigo voltar

Depois tem a psicóloga do filho, não pode faltar, é remoto

mas isso quer dizer que tenho de sair para ele falar


Não cabou o dia, mas já posso surtar? 

Dia Hohoho 22 de papai noel dezembro


Daqui a pouco trabalhar no dia Hohoho 22 de Papai Noel dezembro. 

Não são nem 9 horas e já faz 28 graus lá fora

Além de trabalhar ainda gastando luz pra ligar o ar


Também tenho um crime para confessar

talvez pior do que adoçar

requentei café de ontem, podem julgar



19 de dez. de 2025

quantas desilusões curam a rima?


desde que comecei a sonhar de novo

a rima não me larga mais


quero fugir dela, tiro o óculos

assim não começo o gancho


a mente responde: - Tanto faz,

não preciso óculos para seu garrancho.


Fala alguma coisa sem rima, 

seu chato maldito.


Cérebro, eu te interdito

vou te internar,

anestesiar com pirulito


tirar à força essa memória

com tequila, sem história

ficar anêmica de tanto dar

curar com ferro e carne (que tem B12)

12 é um bom número, pra começar

vamos emputecer pra passar


quantas desilusões curam a rima?

ou será minha sina, 

só piorar?

sustinho na pobreza

A gente tenta dar um susto na pobreza, mas o resto da vida não sustenta. 

O café da promoção tem nome francês, porque para o bom colonizado brasileiro, o requintado tem de ser estrangeiro, ou soar assim, mesmo sendo o Brasil famoso por seu café, e não a França.

Mas aí todo o resto é capenga. A água não filtrada vai direto para a chaleira. A chaleira é de alumínio, com esmalte desgastado igual dona de casa que lava louça sem luva e calcinha na mão para não estragar a renda. 

E então o café de nome francês, que tem propaganda com ouro em pó, parece igual um bem médio qualquer. A pobreza pensa: não pode ser, deve ser o resto capenga. A água, a chaleira, o coador de plástico laranja. Talvez a quantidade de pó, a temperatura da água, a validade do pó. Vale nada, já descobri.

5 de dez. de 2025

"vamos nos falando"

são eles te cozinhando

cada maria, em um banho


cada panela, uma boca do fogão

sem tempo, irmão

Maria também tem orgulho

e sabe responder não

pra quem não faz tanta questão


se é horário nobre do princeso

quem somos nós pra atrapalhar

tão disputada agenda

fica cada um por si, no sossego


e vai cada um pro seu lado, 

de contramão


prazer em conhecer

não estou aqui pela sua beleza

me diz quantos sentimentos

e se tem sobremesa


não estou aqui pelos seus bens

me diz se tem molejo

quero ver se dança bem


não estou aqui pelo seu cargo

me diz se tem tempo

para curtir pele ao vento


não estou aqui por sua herança

quero saber o olhar que lança

como se porta quando tenta


não estou aqui por nada

escolhendo minha salada,

prazer em conhecer

E o ano foi-ce

e o amor, foi-se pra onde?


e as promessas foram-se vagas

rasas e vazias


nada além de inútil poesia


e o dia amanheceu-se

cinza, apensar do sol

bonita, a pesada nuvem


e o dia escureceu-se

azul, apesar de cinza


novembro 2025

30 de nov. de 2025

quem foi essa menina?

depois de alguns anos

entrar naquele link empoeirado da teia


vai lembrar quem era?

foram tantas outras, 

foram tantos anos

ou foram só dias?


que cheiro tinha?

foi em que vida

a despedida

era santa ou putinha?


esse tanto de escrito

foi só pra mim 

já era antes

ou começou no fim?


eu fui sem olhar para trás

ou exitei na esquina?


foi longo, durou quanto

era mulher ou menina?


foi intenso ou foi morno

eu tava por alto

ou ela por cima?


foi dia ou foi noite

me trouxe sorte

ou mau agouro?


quem foi essa menina?


era alta, era baixa

cabeluda ou depilada

engraçada ou ranzinza


tanto faz, tá apagada

tira essa teia do dedo

fecha estas páginas viradas


pela fresta

nada melhor para poesia

do que ser dispensada


nada melhor para a rima

que ser friamente descartada


nada rende melhor verso

que uma bonita renda

abruptamente desfiada


nada melhor para um poeta,

ser deixado no escuro

a mente faz uma festa

triste e caótica,

mas ainda festa (presta?)


de uma porta fechada

poeta não acha janela

mas um livro todo

ele tira da lapela

Seguirei a pé

Ficou tanto não dito.
Pêlos aflitos

Ficou tão estranho,
este sentir tacanho


tão imperfeito, tão torto
e tão humano

Nem um tchau, nem um cansei,
nem um: -Basta!, voltei pra ex

não vai ter cena de ciúme,
não vai ter vidro de perfume

não vai ter bolo, nem café
só vai ter fome.

Seguirei a pé


nem boa noite, nem bom dia

Mas que grosseria
nem boa noite, nem bom dia

Quando se vê, tudo esfria
você se pergunta: eu deveria?

Para onde a gente ia

A vida é cheia de ironia
você nem sabe se queria

mas ainda tem um sonho, espia,
um orgulhoso com outro não se cria

quem irá sair deste estado de apatia
romper o silêncio, voltar a harmonia

quem irá buscar de volta a alegria
de uma simples sintonia